Novo especialista visa melhorar a experiência da criança internada

Todos os dias de manhã, Dora passa pelos apartamentos do 14° andar do Sabará para ver os pacientes. Ela não é médica, nem enfermeira, nem técnica. Também não é fonoaudióloga, nem fisioterapeuta. Ela está se formando em “Child Life Specialist”, função tão nova no Brasil que ainda não tem um nome em português. Seria algo como: especialista na vida da criança.

Na prática, seu objetivo é transformar a experiência da criança no hospital, para torná-la mais leve. “Bebês, crianças, jovens e famílias se beneficiam da intervenção do Child Life Specialist para lidar com o estresse e a incerteza de doenças, lesões e tratamentos (hospitalização). Os Child Life Specialists fornecem intervenções baseadas no desenvolvimento e com base em evidências, incluindo brincadeiras terapêuticas, preparação e educação que reduzem o medo, a ansiedade e a dor de bebês, crianças e jovens”, descreve a Associação dos Profissionais Child Life.

“Eu faço um acompanhamento psicossocial das crianças e das famílias, para minimizar a tensão e o estresse, e para tentar organizar a vida da criança dentro do hospital”, explica Dora Leite, que é graduada em psicologia.

Child Life é uma profissão que age de maneira diferente dos voluntários, psicólogos e grupos da rede de humanização. Um de seus papéis é estar presente em momentos especialmente estressantes, como exames e procedimentos doloridos. Sempre que possível, prepara a criança antes do procedimento e permanece ao seu lado durante o mesmo.

O Child Life está em constante contato com a equipe multiprofissional (enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição) para informações sobre diagnóstico e tratamentos e também com as famílias. Se uma criança não atende ou não aceita fazer determinado exame, o Child Life pode ser acionado pela equipe assistencial para ajudá-la a passar pelo procedimento.

A pioneira nesta profissão no Brasil é Sandra Mutarelli Setúbal, que é Presidente do Instituto PENSI e atua no Sabará Hospital Infantil. Ela já concluiu um curso e um estágio em hospital norte-americano para exercer a função no Brasil. A Dora é a segunda profissional do Sabará nesta área, e ainda está em formação.

Por enquanto, o projeto é piloto e acontece apenas no 14° andar, com o objetivo de expandir para os demais andares do Hospital em 2019.

 

Garrafa mágica

Uma das invenções de Sandra e Dora foi a “garrafa mágica”, que surgiu para resolver um problema na realização de Uretrocistrografia Miccional, exame em que é necessário a criança usar uma sonda para urinar.

O procedimento pode ser estressante para a criança e fazer com que ela prenda a urina, dificultando a realização do mesmo. A garrafa mágica – cheia de glitter, miçangas,  lantejoulas, bolinhas e água – surgiu para distrair a criança no momento do exame, uma vez que ela fica interessada em todas aquelas cores e brilhos e não foca no procedimento. Além disso, o movimento e o barulho da água também ajudam na micção necessária para o exame.

O Centro de Diagnósticos se beneficiou do programa de Child Life de outras formas também. Nos exames de Tomografia e Ressonância Magnética, por exemplo, na maioria das vezes é necessária a realização de anestesia para que a criança se mantenha parada. As profissionais do Child Life vêm atuando em alguns casos específicos junto às crianças para que elas fiquem tranquilas antes do exame e possam realizá-lo sem anestesia.

 

Brinquedos e brincadeiras

Nos apartamentos de internação, o Child Life pode fazer vários tipos de intervenção, como música, desenho, pintura, massinha, personagens, brinquedos de encaixe, bonecas, objetos médicos e o cesto dos tesouros.

A escolha vai depender da idade da criança, do diagnóstico, do tempo de internação, do interesse dela, entre outros fatores.

Um dos recursos, por exemplo, é uma boneca de tecido branco, que o Child Life Specialist oferece ao paciente com canetinhas de colorir. Muitas vezes, por meio do desenho na boneca, o paciente se expressa. Mostra as dores que está sentindo ao usar mais força na caneta em determinadas partes do corpo, por exemplo. “A criança vai expressando no corpo do boneco o que o corpo dela passou”, explica Dora.

Lorena com boneca de pano desenhada

Uma sacola de brinquedos médicos também faz parte do acervo do Child Life, incluindo máscara, seringa, luva, tubo da inalação, otoscópio, curativo adesivo e até crachá. “É tudo de verdade, são os materiais usados no Hospital. A ideia é que a criança vá criando outra relação, com outro significado, com esses instrumentos. Às vezes os objetos médicos são fantasmas na cabeça da criança”, diz Dora. Manipular os mesmos, simulando os procedimentos, como um curativo no boneco, ajuda a criança a lidar melhor com a situação. “O ‘brincar de médico’ a ajuda a adquirir senso de domínio e controle”, explica Sandra.

“O brincar é a forma pela qual a criança nos revela suas emoções, seus medos, suas preocupações, suas dúvidas. Enquanto está brincando, nos dá dicas a respeito do que está se passando com ela, desde quando entrou no hospital”, completa Sandra.

Para os bebês, há o cesto dos tesouros. Com ele, o intuito é estimular o desenvolvimento por meio de objetos que exercitam os sentidos com diferentes texturas, formas e cores. A criança pode apertar, colocar um dentro do outro e observar o que acontece ao deixar cair.

“O profissional do Child Life é um especialista em desenvolvimento infantil. A gente busca sempre se comunicar com a criança de acordo com aquilo que ela mostra de desenvolvimento de linguagem e compreensão”, explica Dora.

Os próximos passos para implementação do programa de Child Life em todo o Hospital é a contratação e capacitação de mais profissionais na área, que deverá ocorrer em 2019. Também terá início, no ano que vem, uma pós-graduação em Psicologia e Saúde da Criança, realizada pelo Instituto PENSI, e que apresentará a abordagem Child Life para profissionais da área (clique aqui para saber mais).

Autor: Mariana Setubal

Atualizado em: 28/9/2018