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Fraturas

Fraturas em crianças e adolescentes evoluem de maneira diferente das fraturas em adultos. Dentre os diversos fatores que interferem nesse comportamento, alguns já foram bem estudados, como, por exemplo, as características anatômicas do osso nessa faixa etária, seu potencial de crescimento, a correção espontânea de algumas deformidades, a resposta das partes moles às lesões e os princípios básicos que norteiam o tratamento das mesmas.

Características culturais, sociais, profissionais, regionais e do local de atendimento, dentre outros, definem a epidemiologia das fraturas expostas (FE) e ainda merece análise aprofundada, para se ter conhecimento completo das fraturas. Serviços de referência têm maior possibilidade de atender casos mais complicados do que os hospitais gerais e centros médicos periféricos .

As fraturas das crianças e adolescentes predominam no sexo masculino após os 10 anos de idade. Os ossos das crianças têm características próprias e que implicam em diferentes manuseios, tais como:

  • Placa de crescimento: a área da placa é mais resistente que o resto do osso, e o crescimento facilita a remodelação pós-fratura. Por outro lado, lesões da placa podem levar a deformidades pelo crescimento assimétrico.
  • Presença de maior espessura da cartilagem articular – não vista no raio X – torna mais difícil a interpretação da fratura e a avaliação do tamanho do fragmento fraturado.
  • Periósteo grosso – quando intacto, o desvio das fraturas é menor; a consolidação é rápida; e o calo fraturário, exuberante.
  • Relação osso-colágeno maior aumenta a elasticidade do osso e a possibilidade de deformidade plástica dos ossos longos.
  • Os ligamentos são relativamente mais fortes que o osso, entorses são raros e as avulsões são mais comuns.

FRATURAS MAIS COMUNS

FRATURAS DA MÃO
As fraturas dos metacarpos (ossos dos dedos) são responsáveis por 30% a 40% de todas as fraturas da mão. E elas são geralmente o resultado de trauma direto.
O pico de incidência é observado na adolescência, devido à prática esportiva, e até os 3 anos, em consequência de lesões por esmagamento.

Ocorrem inchaço, equimose, deformações e lesões abertas. A mão ilesa apresenta uma cascata normal de dedos semifletidos (semidobrados) – e uma alteração nessa postura pode indicar lesão.

O tratamento depende, fundamentalmente, do local da fratura e da quantidade do desvio: fraturas com deslocamento mínimo sem desvio rotacional podem ser tratadas com imobilização por 3 a 4 semanas.

Para fraturas das falanges e metacarpais, recomenda-se a imobilização do dedo fraturado com pelo menos um dos dedos adjacentes. Aparelho braquiopalmar (mão/braço) é aceito contanto que haja cooperação. A grande maioria das fraturas de mão em crianças consolida-se sem complicações.

FRATURAS DO RÁDIO DISTAL E/OU ANTEBRAÇO
Fraturas do antebraço estão entre as mais comuns em crianças, representando 40% a 50% de todas as fraturas da infância.

O terço distal do antebraço, envolvendo o rádio e/ou a ulna, é a localização mais comum, representando cerca de 75% das fraturas do antebraço e de 20% a 25% de todas as fraturas pediátricas. Essa alta incidência pode ser explicada pelo aumento da massa corporal em relação a um conteúdo mineral ósseo em geral durante o crescimento e desenvolvimento.

A maioria dessas fraturas irá ocorrer em crianças com mais de 5 anos (pico etário de 10 a 14). São três vezes mais comuns nos meninos e mais frequentes durante o estirão da adolescência. O mecanismo geralmente é a queda. Causam dor na porção distal do antebraço e limitação do movimento do punho e da mão. A deformidade depende do grau de desvio da fratura, que pode ser avaliada pela radiografia em ântero-posterior e lateral.

O tratamento depende do desvio e da idade da criança. Fraturas próximas da linha de crescimento e em baixa idade aceitam desvios maiores, pela remodelação proveniente do crescimento. Num primeiro momento, o paciente deve ser imobilizado com tala gessada braquiopalmar até ser definida a necessidade de redução incruenta ou cruenta, com ou sem a fixação com fios de aço.

FRATURAS SUPRACONDILIANAS DO ÚMERO
Fraturas do úmero proximal representam menos de 5% de todas as fraturas pediátricas. Essas fraturas podem ocorrer quer através da physis (placa de crescimento) ou na metáfise.

Uma das características mais importantes das fraturas do úmero é sua capacidade de remodelar. A maioria dessas fraturas pode ser tratada com uma imobilização do ombro.

As fraturas de úmero distal (cotovelo) representam 70% das fraturas do cotovelo nas crianças, e idade mais comum é por volta dos 6 anos, consequência de queda com mão espalmada e o cotovelo totalmente estendido em 90% dos casos, com desvio do osso.

O quadro clínico é de dor, edema e impotência funcional. É imperiosa a avaliação neurológica inicial do membro acometido, sensitiva e motora dos três nervos: radial, mediano e ulnar.

FRATURA DE FÊMUR
Em casos de criança com antecedente de queda ou trauma, dor e impossibilidade de deambular, inicialmente deve-se verificar as condições gerais. É importante a pesquisa de espancamento, especialmente nas crianças pequenas.

A grande maioria das fraturas do fêmur é tratada incruentamente, com redução e gesso pelvipodálico. Nas crianças maiores, acima dos 6 ou 7 anos até a adolescência, pode haver indicação de redução e fixação com hastes intramedulares.

FUNÇÃO E CUIDADOS COM A IMOBILIZAÇÃO
Depois de um trauma ou uma torção, podemos ter de utilizar imobilização. Em especial nos casos em que o trauma resulta em fratura. É muito importante contar com a sua colaboração na manutenção da imobilização até o final do tratamento.

O gesso serve para manter a posição do local afetado em repouso ou na posição de redução. O gesso imobiliza uma articulação acima e outra abaixo da área a ser tratada.

CUIDADOS NECESSÁRIOS
Nas primeiras horas, observar a perfusão periférica e a mobilidade dos dedos, especialmente após reduções de fraturas. Elevar a extremidade imobilizada acima do nível do coração ajuda a melhorar o edema e alivia a dor. Caso não haja melhora da dor ou alterações da sensibilidade, pode ser necessário fender o gesso.

Orientar a família e a criança a como proteger o gesso, não quebrá-lo ou deixá-lo molhado. Quando úmido ou molhado, ele perde a capacidade de manter a extremidade na posição adequada e, portanto, pode necessitar ser trocado.
Também orientar a criança a não coçar a pele dentro do gesso com objetos pontiagudos, pois podem machucar a pele; e não deixar que coloquem objetos pequenos dentro do gesso por brincadeira.

Autora: Dra. Patrícia Moraes de Barros Fucs
Fonte: Baseado no texto da autora no livro Manual de Urgências e Emergências em Pediatria
Hospital Infantil Sabará – Ed. Sarvier