Primeira reconstrução traqueal pediátrica em ECMO do Brasil é realizada no Sabará

A pequena Lavínia tinha 7 meses quando foi internada com dificuldade respiratória num hospital em Uberlância (MG), cidade natal da família. Lavínia parecia ser um bebê muito saudável, exceto por um barulhinho na respiração que nenhum médico conseguia diagnosticar. O tal barulhinho não a impedia de levar uma vida normal.

Ao contrair um resfriado, em junho deste ano, o barulho aumentou e levou a pequena para o Pronto-Socorro. Com o quadro grave, ficou internada fazendo uma bateria de exames, até ser descoberta a estenose de traqueia distal, um estreitamento na traqueia que dificultava sua respiração. “Os médicos me explicaram que a traqueia dela era como um lápis, que vai afinando na ponta”, conta a mãe, Ediana Ribeiro da Silva. Segundo ela, a cada dia que passava, a ventilação mecânica que recebia na UTI, parecia menos eficiente.

Uma médica de Uberlândia que acompanhou o caso conhecia o cirurgião Dr. Patricio Varela, médico chileno, com grande experiência em cirurgia de traqueia, e que, por uma coincidência ou “obra de Deus”, como diz Ediana, estaria no Brasil no final de junho, realizando um curso de via aérea pediátrica no Sabará. A Dra. Saramira Bohadana, que é cirurgiã de via aérea, responsabilizou-se pelo caso da Lavínia em São Paulo. Foi uma corrida contra o tempo para conseguir autorização do plano de saúde e realizar a transferência para o Sabará em uma UTI aérea.

 

Vida por um fio

Lavínia chegou a São Paulo numa sexta-feira e no sábado seria realizada uma broncoscopia pelo Dr. Varela. A situação era crítica e a vida de Lavínia estava por um fio. Duas paradas cardíacas levaram à necessidade de colocar a pequena em ECMO, uma tecnologia que imita um coração e um pulmão artificiais, usada como último recurso. “Ela entrou em ECMO por conta da dificuldade de estabilização, tanto hemodinâmica quanto respiratória, porque a traqueia estava muito estreita e ela não conseguia respirar, mesmo intubada. O ar não passava. Se não tivesse entrado em ECMO naquele momento, provavelmente ela teria morrido”, conta a Dra. Grace Bichara, Coordenadora do ECMO Team do Sabará.

A traqueia de Lavínia estava 80% obstruída, com menos de 2mm (quando o normal é cerca de 7mm). “Lavínia tinha uma forma muito rara, muito complexa de estenose traqueal, diferente de todas que eu tinha visto”, conta o experiente médico Dr. Varela. A ECMO, além de salvar a vida de Lavínia naquele momento, facilitou a cirurgia para os médicos, que normalmente fazem esse tipo de procedimento com Circulação Extracorpórea, que é um pouco mais simples. Não há nenhum relato no Brasil desta cirurgia sendo realizada em ECMO, sendo esta a primeira. Na vida profissional do Dr. Varela, é a quarta vez que usa a tecnologia durante uma cirurgia (as outras vezes foram no Chile e na Colômbia).

Assim, Lavínia entrou na complicadíssima cirurgia no domingo, 24 de junho. Durou 7 horas e teve um grande time de médicos participando, entre eles Dr. Varela, Dra. Saramira Bohadana, Dra. Beatriz Furlanetto, Dra. Grace Bichara e Dra. Diana Romero, de Bogotá – Colômbia. Segundo a equipe, a chance de Lavínia morrer era de 70%. Enquanto os médicos faziam a cirurgia inédita no Brasil, Ediana foi à Igreja rezar, torcendo para seu celular não tocar com más notícias.

O primeiro grande alívio foi o término da cirurgia, com sucesso. O segundo, quatro dias depois, foi o desmame da ECMO, quando o pulmão e o coração de Lavínia voltaram a funcionar sozinhos. Em um mês, Lavínia já havia saído da UTI, com a traqueia funcionando perfeitamente. Agora, a família aguarda apenas voltar para casa, também de UTI aérea, para garantir oxigenação adequada durante o voo.

Segundo o Dr. Varela, a pequena poderá levar uma vida normal, com acompanhamento médico e pequenas limitações. “Ela não vai subir uma montanha, mas eu também não vou!”, brinca a Dra. Grace.

 

Casos no Brasil

Estima-se que exista um caso de Estenose Congênita de Traqueia a cada 120 mil nascimentos. “No Brasil há muitos pacientes com esse quadro, mas poucos são diagnosticados”, diz o Dr. Varela. Segundo ele, há um espectro de casos leves, moderados e severos, mas todos têm comprometimento respiratório, com a traqueia estreitada. O diagnóstico não é complicado e pode salvar vidas.

No Sabará Hospital Infantil, temos uma equipe de Via Aérea Pediátrica, composta de Broncoscopistas, Cirurgiões de Via Aérea, Otorrinos e Cirurgiões de Tórax, especializados para o diagnóstico de má-formações congênitas em crianças.

Autor: Mariana Setubal

Atualizado em: 07/8/2018