Maioria das crianças com dificuldades alimentares têm mães controladoras ou permissivas, mostra estudo

Forçar a criança a se alimentar, usar distrações, ambiente e postura inadequados, além de ausência de familiares são os principais erros no momento das refeições

 

São Paulo, janeiro de 2018 – Um estudo publicado em janeiro de 2018 na revista internacional Frontiers concluiu que a maioria (76%) das mães com filhos que têm dificuldades alimentares são do perfil “não responsivo”, sendo elas divididas em três perfis: autoritárias ou controladoras (40%), indulgentes (22%) e negligentes ou terceirizadoras (14%).

O estudo foi conduzido pela equipe do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI, da Fundação José Luiz Egydio Setubal, da qual também faz parte o Sabará Hospital Infantil. Foram analisadas 77 crianças na média entre 3 e 4 anos, cujas famílias procuraram o CDA por queixas relacionadas à alimentação. Entre as dificuldades alimentares apresentadas pelas crianças, estavam: aversões alimentares, recusa total ou parcial de comida, neofobia alimentar exacerbada (recusa a tudo o que é novo), ingestão limitada a grupos de alimentos específicos, preferências alimentares fortes, atrasos nos padrões de sucção, deglutição e mastigação, vômitos forçados, birras e outros maus hábitos durante das refeições.

 

Grupos de mães

Ao analisar as características do comportamento das mães relacionado às refeições dessas crianças, elas foram inicialmente divididas em dois grupos: responsivas e não responsivas.

  • Responsivas: este grupo é caracterizado por não forçar as crianças durante as refeições, estimular a autonomia da criança ao alimentar-se, usar utensílios apropriados e promover ambiente de refeição adequado com interação entre adultos e crianças.
  • Não responsivas: corresponde à maioria das mães com filhos com dificuldades alimentares (76%). Nesses casos, as crianças tinham um ambiente inadequado na hora das refeições, postura errada, uso de distrações e coerção na alimentação, ausência de refeições compartilhadas e baixo reconhecimento dos sinais de fome ou saciedade da criança. Este grupo foi dividido em três perfis de mães:
    • controladoras ou autoritárias (altos níveis de controle e demanda, e falta de carinho e comunicação. Cuidadores que tendem a usar práticas coercivas para moderar comportamentos intoleráveis);
    • indulgentes (altos níveis de afeição e comunicação, porém com falta de controle. Cuidadores não estabelecem regras ou exercitam controles sobre o comportamento da criança);
    • negligentes ou terceirizadoras (baixos níveis de atenção às crianças. Cuidadores com pouco envolvimento nas tarefas de criação e educação. Este perfil engloba também o terceirizador responsável, que delega o cuidado mas está por trás interessado).

 

Responsivo X não responsivo

O consumo de alimentos saudáveis, redução da ingestão de doces e bebidas açucaradas, menores níveis de obesidade e de sedentarismo, assim como o desenvolvimento de habilidades sociais, o aprendizado e auto-estima têm relação com os cuidados responsivos.  “O cuidador responsivo tende a se engajar mais nas refeições em família e estimular a autonomia e independência da criança em todas as esferas de desenvolvimento, enquanto o cuidador não responsivo tende a usar práticas como pressão, recompensas, chantagem, punição, distração durante as refeições, bem como oferecer alimentos de baixo valor nutritivo, criando uma relação sem reciprocidade com a criança”, diz o estudo.  O hábito de compartilhar as refeições foi considerado um fator protetor contra o comportamento não responsivo. Todas as mães (responsivas e não responsivas) apresentaram comportamentos adequados e inadequados. Ou seja, não existe mãe perfeita. A diferença é que as mães responsivas apresentam os comportamentos não responsivos (inadequados) em menor frequência em comparação às demais.

 

Consequências

As dificuldades alimentares podem ter consequências no crescimento, desenvolvimento e no relacionamento com os familiares. Assim, o ambiente pode se tornar menos responsivo e cheio de preocupação e angústia.

Outros estudos haviam mostrado que pais não responsivos tendem a usar mais ainda essas práticas, como o autoritarismo, conforme o filho se recusa a comer.

O ambiente pode acabar piorando a recusa alimentar. Por isso, no tratamento dessas crianças, dar conhecimento e orientação comportamental aos cuidadores é um passo importante.

“Os resultados destacam a necessidade de intervenções psicológicas e comportamentais paralelas e simultâneas ao acompanhamento multidisciplinar tradicional dirigido para a família com Dificuldades Alimentares, devido à influência do perfil do cuidador e do ambiente oferecido para as refeições na recusa de alimentação. Cuidadores indulgentes e negligentes / terceirizadores poderiam ser encorajados a abordar adequadamente as crianças e se envolver com todo o processo de alimentação de seus filhos; enquanto os autoritários / controladores poderiam ser ensinados quanto à forma adequada de interação com os filhos”, diz o estudo.

 

Outros resultados

  • Uso de mamadeira – 58% das famílias participantes da pesquisa faziam uso prolongado da mamadeira, ou seja, acima de 24 meses. O uso prolongado de mamadeira atrapalha o desenvolvimento da fala, mastigação, deglutição, e ainda favorece o consumo excessivo de leite (que acaba por substituir os alimentos).
  • Postura – 73% dos participantes tinham postura inadequada durante as refeições (como comer no chão, em cima da mesa, no colo, andando pela casa etc). O correto é o uso de booster ou cadeirão com inclinação de 90 graus.
  • Práticas coercivas – 66% das famílias participantes usavam a força para alimentar a criança e 82% usavam distrações, como TV, celular, tablet e brinquedos.
  • Ambiente – em 53% dos casos, o ambiente das refeições era inadequado, como quarto, sala de TV e brinquedoteca.
  • Presença de adultos – em 73% das famílias, os adultos não estavam presentes nas refeições das crianças.
  • Respeito aos sinais de fome e saciedade – 98% das famílias não reconhece quando a criança está satisfeita ou com fome (crianças acima de 24 meses).
  • Mães do perfil negligente / terceirizador amamentaram exclusivamente por um período mais curto comparado às autoritárias / controladoras e às indulgentes.
  • A interação entre mãe e filho também foi maior entre as mães responsivas e controladoras e menor entre as negligentes / terceirizadoras.  

 

Sobre o Centro de Dificuldades Alimentares

Formado por uma equipe multidisciplinar, com médicos, nutricionistas, psicólogos e fonoaudióloga, o Centro de Dificuldades Alimentares atende crianças que têm algum tipo de queixa, desde a necessidade simples de uma orientação básica em relação à alimentação até casos graves de seletividade.  A equipe é comandada pelo nutrólogo Dr. Mauro Fisberg, e o estudo foi conduzido por Rachel Machado, Abykeyla M. Tosatti, Gabriela Malzyner, Priscila MaximinoCláudia C. Ramos, Ana Beatriz Bozzini e Letícia W. Ribeiro.  A revista Frontiers em Pediatria e Gastroenterologia é uma das principais publicações internacionais da área e este é o segundo artigo da equipe do CDA publicado na seção de Dificuldades Alimentares.

 

Comportamento responsivo – dicas para os pais

  • Reconhecer os sinais emitidos pela criança e responder prontamente, dando apoio;
  • Sorrir, usar palavras de encorajamento e conversar com a criança sobre comida;
  • Fazer contato visual ao longo da refeição;
  • Alimentar a criança com disposição, paciência e sem pressa;
  • Esperar a criança terminar de mastigar e engolir e mostrar sinais de saciedade antes de oferecer mais comida;
  • Providenciar alimentos que podem ser manipulados sem o auxílio de um adulto;
  • Oferecer alimentos em ambiente e postura apropriados, sem distrações e coerção;
  • Estar completamente envolvido no ato de alimentar a criança;
  • A refeição deve acontecer na companhia de outros membros da família, de preferência comendo juntos;
  • Os alimentos devem ser adequados em consistência, apresentação e valor nutricional, oferecendo a oportunidade à criança para explorar sabores e texturas.