O que os Olhos não Enxergam, o Organismo Sente

NFarmacêutica do Hospital Infantil Sabará fala do bisfenol-A, substância que faz mal à saúde e está presente em plásticos, revestimentos internos de latas de leite em pó e refrigerantes.

São Paulo, junho de 2011 Dos mais de 250 mil compostos criados pelo homem e usados no cotidiano, aproximadamente 240 foram estudados. Apesar de usarmos o bisfenol-A, substância presente em plásticos desde os anos 50, somente há cinco anos, os cientistas descobriram sua toxidade.

Presente em mamadeiras, utensílios de plástico usados por crianças (como canecas, pratos e talheres), em latas de leite em pó e até latas de refrigerantes, o composto é perigoso.

Apesar de as pesquisas serem recentes, alerta a farmacêutica Mariana La Terza, do Hospital Infantil Sabará, algumas já mostraram que o bisfenol pode causar desequilíbrio hormonal, levando à obesidade, puberdade precoce, infertilidade, outras disfunções sexuais e câncer.

“Isso acontece em longo prazo, a substância, que pode ser ingerida ou absorvida pela pele, vai se acumulando no organismo. Estudos provaram que 90% dos norte-americanos apresentam concentrações relevantes de bisfenol-A na urina”, informa.

De acordo com a especialista, para saber se os utensílios contêm bisfenol, as pessoas têm de se habituar a ler o rótulo na hora da compra – algo que o brasileiro nem sempre está acostumado por pressa ou confiança no fabricante. No fundo das embalagens plásticas, há um número dentro de um triângulo com a indicação do tipo de plástico utilizado na fabricação. Os produtos com plástico 3 e 7 podem conter bisfenol e devem ser evitados. Em geral, o composto está presente em plásticos rígidos e transparentes.

No caso das mamadeiras, o alerta mundial ganhou proporções porque atinge crianças pequenas, ainda em fase de desenvolvimento. Se o bisfenol pode interferir em nossos hormônios, o que fará no organismo desses jovens cujos sistemas ainda são imaturos?, indaga La Terza.

Sem contar que: quando aquecido o plástico, a liberação do composto aumenta em cerca de 50 vezes. E quase todos os pais esquentam o leite diretamente na mamadeira, um hábito que tem de ser abandonado o mais cedo possível, na opinião da farmacêutica.

“A solução é optar por mamadeiras livres do composto – que são importadas e costumam ser mais caras, ou comprar aquelas de vidro, e usá-las com todo cuidado para evitar acidentes que possam provocar cortes”, afirma.

Nas latas de leite em pó e refrigerante, explica a farmacêutica, o bisfenol-A está na parte interna.

Na hora do supermercado, adverte a especialista do Hospital Sabará, as pessoas devem procurar pelos plásticos 1, 2, 4, 5 ou 6, menos prováveis de conter o composto.

Além de investir no aleitamento materno, recomendado até os seis meses pela Sociedade Brasileira de Pediatria, os pais devem:

- limitar a ingestão de alimentos e bebidas enlatados;
- ao comprar alimentos em conserva, preferir os acondicionados em vidro;
- seguir as recomendações alimentares do pediatra;
- descartar as mamadeiras e copos plásticos infantis rachados, pois além de abrigar germes, as rachaduras podem facilitar a migração do bisfenol-A para os alimentos;
- evitar aquecer a mamadeira no microondas;
- não adicionar líquidos muito quentes e/ou fervendo em recipientes plásticos, como por exemplo, na mamadeira;
- preferir recipientes de aço inox, cerâmica ou vidro para acondicionar os alimentos.

Em diversos países o bisfenol já foi proibido, como Canadá, China e União Européia. Nos Estados Unidos, já é possível encontrar produtos livres do composto. No Brasil, para a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o bisfenol dentro da quantidade estipulada pela lei (0,6mg/kg), não é perigoso – algo ainda contestável. “Afinal os efeitos nocivos da substância são em longo prazo e cumulativo, nem sempre sabemos a quantidade que está sendo ingerida e por quanto tempo estaremos expostos já que o nosso mundo está repleto de plásticos”?, questiona.

Em abril deste ano, no entanto, a Justiça Federal em SP determinou que a ANVISA gere uma regulamentação específica obrigando os fabricantes a informar sobre a presença do bisfenol-A nas embalagens de alguns tipos de produtos.