Anestesiologistas ajudam a realizar sonhos

Time de anestesia de uma das missões do Dr. Hugo Melo
O Dr. Hugo Melo e a Dra. Maíra Gonçalves, ambos anestesiologistas do Sabará, com uma enfermeira da missão
Dia da triagem na China. Voluntários, staff do hospital local e políticos
Toda a equipe em Santarem
Anestesistas e residentes em Monterrey, México
Anestesistas e residentes em Jimma, Etiópia

 

Débora Cumino, Hugo Melo e Daniel Kim são anestesiologistas do Sabará Hospital Infantil. Além deste trabalho, eles têm outra coisa em comum: o voluntariado na ONG Operação Sorriso, que oferece cirurgias reparadoras de lábio leporino e fenda palatina gratuitamente em crianças de famílias carentes de todo o mundo.

Estes médicos, experientes com o público pediátrico, viajam pelo Brasil e para fora a fim de realizar anestesias nessas crianças e, assim, ajudar no processo para um sorriso mais bonito.

A ONG está presente no Brasil desde 1997 e já realizou missões em 15 cidades por aqui, com foco no Norte e Nordeste. Mais de 5000 pacientes já receberam atendimento cirúrgico gratuito nesses 21 anos de atuação, em lugares como Santarém (PA), Fortaleza (CE) e Mossoró (RN).

 

Trabalho voluntário

 

Nossos médicos atuam por lá desde 2014. Como os pacientes das missões precisam de um atendimento muito especializado, sendo a maioria crianças, é fundamental haver anestesiologistas pediátricos. No Brasil, há poucos anestesistas especialistas em crianças, daí a importância dos nossos médicos nessa ação. “Tenho a sensação de estar contribuindo de alguma forma com a sociedade”, conta a Dra. Debora Cumino, Coordenadora do Serviço de Anestesiologia Pediátrica do Sabará.

Cada missão dura uma semana. No primeiro dia, os voluntários realizam a triagem dos pacientes (há pediatras, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogos, dentistas, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, geneticistas e anestesiologistas). São cerca de 100 a 200 pacientes avaliados e, geralmente, cerca de 70 a 80 são selecionados para fazer a cirurgia. Para essa escolha, os especialistas levam em conta diversos critérios, que envolvem a faixa etária adequada e condições de saúde favoráveis, entre outros. Depois dessa triagem, há quatro dias intensos de trabalho.

Para que esse volume de cirurgias aconteça num período tão curto, tem que ser tudo muito orquestrado. E é, graças ao clima colaborativo das missões e aos protocolos, que padronizam procedimentos. “Você junta 60 pessoas de lugares diferentes, que não se conhecem, para trabalhar em conjunto. E tudo dá certo! O fato de estar todo mundo num clima de colaboração ajuda”, conta o Dr. Hugo Melo, que participou de cinco missões. “Essa é a maneira que eu encontrei de ajudar as pessoas fazendo o que eu mais gosto, o que eu mais amo, que é a anestesia”, conta Hugo.

Faixa de agradecimento que o Dr. Daniel Kim recebeu de uma criança na China.

 

“Agora meu filho pode ir à escola”

 

Na primeira experiência da Dra. Debora Cumino, ela descobriu uma realidade completamente diferente da sua. Soube que, em algumas comunidades, as crianças com lábio leporino e fenda palatina não são aceitas socialmente por causa de sua aparência. Ocorre até infanticídio em determinadas aldeias indígenas. “Participar da missão é uma experiência enriquecedora, porque muito mais do que a correção, você dá inclusão social”, conta.

O Dr. Hugo Melo realizou a cirurgia em uma criança de 9 anos que nunca tinha ido à escola por causa da doença. “A mãe me contou que, quando ele era bebê, não saía com ele, tinha vergonha. Mais tarde, ele mesmo não queria sair. Depois da cirurgia, na recuperação, a mãe entrou, se ajoelhou no chão e começou a agradecer todo mundo, porque agora o filho ia poder ir à escola pela primeira vez. Foi emocionante”, lembra. Talvez mais emocionante que essa seja a história que o Dr. Hugo também presenciou, da senhora que fez a cirurgia de correção apenas aos 67 anos: “finalmente vou poder realizar meu sonho de usar batom”.

Realizar sonhos: isso é o que motiva tantos profissionais a se engajarem na causa. “Eu vi que meu trabalho pode fazer diferença na vida de uma pessoa”, conta o Dr. Daniel Kim, campeão de missões da equipe do Sabará – fez nove em apenas quatro anos.

Antes de entrar nesse projeto, Daniel refletia sobre o valor de seu trabalho. “Na anestesiologia, a gente tem um vínculo muito técnico com os pacientes. Eu pensava: o que eu colaboro de verdade para as outras pessoas? Na Operação, essa foi uma descoberta muito importante pra mim. Eu posso não me lembrar o nome de todos esses pacientes da missão, mas eles provavelmente se lembram de mim. A gratidão dos outros não dá para mensurar, mas é um valor que dura para sempre”, diz.

Kim conta que o lugar mais surpreendente para ele foi Santarém, onde há um senso de coletivo como ele nunca tinha visto. Todo mundo se envolve com a causa, desde o dono do restaurante que se voluntaria como motorista, ao empresário que oferece almoço à equipe. Ouviu deste empresário: “Aconteceu com o filho do ribeirinho, mas poderia ser meu filho. Não é porque é o filho do ribeirinho que dói menos em mim”.

 

Propósito educacional

 

Além de cidades no Norte e Nordeste do Brasil, Kim já foi para China, Etiópia e México. Algumas dessas missões tinham foco maior no objetivo educacional de treinar médicos locais. “Não adianta fazer missão pra sempre. A demanda é infinita. O objetivo é treinar os médicos locais para que eles repliquem o modelo e depois possam continuar a atender”, explica. Ele conta que, em muitos lugares, não falta médico ou equipamento. O que falta é o treinamento especializado.

Estes médicos voluntários levam sorrisos e conhecimento para todos os cantos do mundo. E o mais importante: fazem isso com prazer, sorrindo também.

 

 

Autor: Mariana Setubal

Atualizado em: 08/3/2018